Maior espaço para as boas práticas
 
Nos últimos cinco anos o conceito da Sustentabilidade ganhou espaço no meio corporativo brasileiro. De início, algumas poucas empresas entenderam o termo no sentido mais amplo, isto é, como o resultado colhido por quem assume boas práticas de Ética e Transparência, Governança Corporativa, Responsabilidade Social Corporativa (ou Empresarial) e Responsabilidade Ambiental. Ou, como simplificou John Elkington, fundador da consultoria britânica SustainAbility, identifica quem trabalha com o triple bottom line - People, Planet, Profit - isto é, faz com que o desempenho da empresa seja medido harmonicamente em termos sociais, ambientais e econômicos.
 
No geral, a absorção do conceito foi lenta, como é natural ocorrer com uma idéia nova e, nesse caso, carregada de abstração. E não raro, a adoção das práticas que levam à Sustentabilidade, mesmo quando assumida com a melhor intenção, vinha embrulhada em equívocos. Plantar árvores na praça em frente à sede da empresa não é atestado de responsabilidade ambiental, assim como - na confusão mais comum que ainda se faz - assistencialismo e beneficência não caracterizam responsabilidade social.

Não se pode negar, no entanto, que importantes avanços foram feitos na direção certa. "A sustentabilidade passou a ser o componente estratégico da empresa", admite o co-coordenador do Grupo de Estudos de Sustentabilidade para as empresas do Instituto Brasileiro de Governança Corporativa (IBGC), Carlos Brandão. Ou seja, mesmo que só admitam intra-muros, as empresas sabem que os stakeholders -agentes externos como fornecedores, comunidades locais, consumidores podem afetar os negócios de forma direta, caso não estejam satisfeitos com as suas práticas. E em momentos de crise financeira global e perspectivas de menor crescimento econômico, tudo parece ficar ainda mais obscuro nas fotografias de seus portfólios.

Sobreviver

Neste momento, em que se desenrola a maior crise já vista no capitalismo - cujo desfecho ninguém se arrisca a prever - como ficarão aquelas conquistas. Isto é, quando a palavra de ordem é sobreviver, qual é o risco de que fiquem em segundo plano os instrumentos que constroem o desenvolvimento sustentado?

Geraldo Soares, presidente do Instituto Brasileiro de Relações com Investidores (IBRI), avalia que as empresas empenhadas em minimizar os riscos sociais, ambientais e econômicos terão mais fôlego para superar esses anunciados momentos difíceis. Ele fala sobre o Brasil, onde as práticas financeiras da solidariedade não se podem avaliar com a fita-métrica da cultura filantrópica norte-americana. "Aparentemente, podemos sair com pequenas feridas da crise, mas é em momentos como esse que conseguimos avaliar as empresas que têm compromisso e as que não têm", pontua.

O vice-presidente da Associação dos Analistas e Profissionais de Investimento do Mercado de Capitais (APIMEC SP), Reginaldo Alexandre, avança no fígado da questão, quando considera que a crise traz um novo alento para a prática da sustentabilidade. "Muitas falhas nos aspectos de governança contribuíram para a eclosão da crise. Certamente haverá uma maior preocupação com aprimoramento da gestão, maior discussão dos papéis dos conselheiros (das empresas)", afirma.

Segundo a gerente sênior e especialista da área de sustentabilidade da BDO Trevisan, Patrícia Centeno, com a desaceleração econômica as empresas devem criar instrumentos de controle para a gestão de risco e, portanto, não deixarão de investir em sustentabilidade. "A harmonia entre os pilares econômico, ambiental e  social é de extrema importância para o contínuo sucesso das empresas. Não tem o porquê das empresas frearem os recursos em sustentabilidade", avalia.

Mudança cultural

Na sua percepção em cada ano que passa o assunto responsabilidade social corporativa ganha mais aderência e visibilidade no cotidiano das empresas brasileiras, seja na consciência ou no modo de atuação de seus gestores. "É uma mudança cultural. Antes, havia apenas a prestação de contas para os acionistas, por meio das demonstrações contábeis, hoje existem os relatórios de sustentabilidade Aos poucos, a postura de confidencialidade das informações em outras áreas, que não a financeira, foi se alterando a partir da cobrança dos stakeholders por mais transparência e responsabilidade em relação aos impactos causados por ações das empresas", diz. Outro ponto que Centeno reconhece é a melhora da qualidade da governança. "Nesses períodos a governança corporativa ganha corpo, força, regras claras e maior ambiente de controle", complementa.

"A crise acaba sendo uma oportunidade favorável às políticas ambientais. É uma tendência do mercado gerar mais emprego no terceiro setor", afirma Geraldo Soares, do IBRI. Segundo estimativas da OIT, o Brasil possui cerca de um milhão de pessoas trabalhando em empregos verdes, sendo 500 mil em reciclagem e a outra metade em biocombustíveis. E mesmo que isso mostre uma banda perversa das condições de uma parcela da população, representa o patamar primário da geração mais permanente de renda. "O País tem capacidade para gerar muito mais. A crise também pode ser uma oportunidade para novos negócios. Tudo depende de como se olha", conclui Carlos Brandão, do IBGC.